Quem nunca participou ou pelo menos assistiu a uma Regata Escola Naval não tem ideia da beleza que a vela proporciona num domingo azul ensolarado. Nem do perigo que é estar numa raia com centenas de barcos, alguns enormes, outros miúdos, muitos iatistas com muita experiência, muitos com nenhuma. Sabe aquela expressão que se usa no trânsito “motoristas de fim-de-semana”? Pois é, na vela bem que podemos adaptar a denominação de velejadores de Regata Escola Naval. São possuidores de barcos que anualmente só correm essa regata.

Na época dos Hagen-Sharpie, bem antes da era do silicone, do sikaflex e da fibra de vidro os barcos de madeira ficavam ressecados quando não eram usados por muito tempo, o que reforça a ideia de que barco parado estraga. Participei de uma maratona de chiclete mascado coletiva das crianças do Sailing patrocinado por jovens velejadores que conseguiram um barco emprestado, há algum tempo sem uso. Era manhã de uma Regata Escola Naval e eles tentavam desesperadamente fazer o barco parar de “fazer água” com chiclete. Essa famosa regata, atualmente na sua 72ª versão em 2017, foi organizada como agradecimento do Grêmio de Vela da Escola Naval (cujo Comodoro era nosso sócio mais antigo, Djalma Ferreira) pela gratuidade dada às inscrições dos alunos da Escola, pois as regatas organizadas pelos clubes de vela tinham inscrições pagas.

Num cenário maravilhoso desses, Baía de Guanabara ao fundo, protagonistas a postos, um prato cheio para histórias e lendas.

Na década de setenta, Denis Clemence, conselheiro da antiga IYRU – que estava para a vela como a FIFA está para o futebol – possuía um Lightning, barco de classe panamericana tripulado por três pessoas, bastante difundida mundialmente e muito popular então no Rio de Janeiro e no clube. Denis era então um homem corpulento com uma voz tonitruante que combinava com seu porte físico. Para compensar seu peso corria com dois excelentes e franzinos proeiros adolescentes, George Rider, alguns anos depois exportado para São Paulo, onde ainda hoje veleja de Lightning e Antonio Lopes, atualmente sério e conceituado radiologista e windsurfista em Niterói.

Tradicionalmente, antes da largada há sempre cambadas e bordejos sociais onde cumprimentamos os conhecidos e rosnamos para os arqui-adversários. Era o que Denis elegantemente fazia a bordo de seu barco importado novinho, sendo admirado pela maioria dos competidores. Súbito, numa manobra perfeitamente normal, Denis que estava de pé para melhor visualizar a boia e os olhares invejosos ao redor da embarcação, provavelmente empurrado pelo olho gordo da plateia, perde o equilíbrio indo parar dentro d’água. Momentos de apreensão, “Machucou? Está tudo bem?” e, a seguir, risos dentro do barco. E no momento seguinte todos os competidores gargalhavam, pois Denis vociferava: “Pela bunda! Pela bunda!” enquanto seus tripulantes tentavam sem êxito içá-lo a bordo num barco sem escada, tarefa praticamente impossível em parte pelo riso frouxo, em parte pela diferença de físico das pessoas envolvidas. Para piorar a situação, Denis ao cair não havia largado a extensão de leme e ainda comandava o barco que “pagava 360°” (regra usada para penalizar faltas durante a regata onde o infrator é obrigado a rodar uma vez em seu próprio eixo), rodando igual a um pião sob a visão de todos.

– Texto: Patricia (Patsy) Anne Ferreira